sexta-feira, janeiro 20, 2006

África no papel

“Como tinha um todo-o-terreno resistente, podia circular por toda a parte. Existia ainda um outro pretexto: no início de Outubro, o país vizinho do Tanganica devia obter a independência. A onda de independência inundava todo o continente: em apenas um ano – 1960 – 17 países africanos tinham perdido o seu estatuto de colónia. E o processo continuava, ainda que a um ritmo mais lento.
A viagem de Dar-es-Salam até à capital do Uganda, Kampala, onde iriam ter lugar os festejos da independência, demora três dias, se se andar de sol a sol à velocidade máxima. Metade do percurso é asfaltada, a outra metade é de estradas naturais revestidas a laterite, os chamados raladores africanos, por terem uma superfície estriada sobre a qual só se consegue conduzir a grande velocidade por cima das «nervuras», como no filme Le Salaire de la Peur.
Comigo viajava um grego chamado Leo, meio corretor, meio correspondente de diversos jornais em Atenas. Levávamos quatro pneus sobressalentes, dois barris de gasolina, um barril de água e mantimentos. Partimos de madrugada e dirigimo-nos para norte, tendo à nossa direita o Oceano Índico, embora da estrada não o conseguíssemos ver e, à nossa esquerda, primeiro o maciço de Nguru e depois a estepe de Massai. De ambos os lados da estrada a cor verde era ininterrupta. Erva alta, arbustos cerrados, as enormes copas das árvores. E assim sempre até ao Quilimandjaro e às cidades de Moshi e Arusha no seu sopé. Em Arusha voltámos à direita em direcção ao Lago Vitória. Passados duzentos quilómetros começaram os problemas. Chegámos à região do Serengeti, onde existe a maior concentração de animais selvagens à face do planeta. Por todos os lados se vêem mandas de zebras, antílopes, búfalos, girafas. Todos pastam, saltam, galopam. Mesmo junto da estrada, leões impassíveis, um pouco mais adiante – um grupo de elefantes, e mais além, no horizonte, um leopardo em corrida. É de facto incrível. É como se presenciássemos a criação do Mundo, esse momento especial, em que já existe a terra e o céu, a água, as plantas e os animais selvagens, mas ainda não existem Adão e Eva. Neste lugar, o mundo surge no seu estado primitivo, um mundo sem homens e por isso também sem pecado, e isso é de facto um acontecimento extraordinário.”
“Ébano - Febre Africana” - Ryszard Kapuscinski – Campo das Letras

O autor deste livro é um jornalista polaco que viveu vários anos em África, em diversos países, e procurou sempre o contacto com as pessoas de lá.

Para quem gosta de literatura de viagens e tiver curiosidade em conhecer e perceber um bocadinho melhor África, as suas gentes, a sua geografia e as suas tragédias, aconselho este livro.

2 comentários:

André Costa disse...

Oi.
Olha lá, já leste o Planisfério Pessoal do Gonçalo Cadilhe??
Aconselho vivamente...

Abraço.

Gato disse...

Esse ainda não li. Li algumas crónicas do Gonçalo Cadilhe no expresso e não achei nada de especial, mas vou tomar nota.
Neste momento ando a ler "Na Sibéria" de Colin Thubron.
Alguns bons livros de viagens que li foi este ("Ébano - Febre Africana"), que é mais que um simples livro de viagens, "Sul" do Miguel Sousa Tavares, "Na Patagónia" do Bruce Chatwin, no qual me inspirei para o nome deste blog :)) , etc...